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Psicanalítica

1 A Formação Médica
A prática médica, entendida como prática clínica, pouco mudou em essência desde o início da civilização: ainda (e necessariamente) envolve de um lado o médico que tenta entender, tratar e curar; e do outro lado, o paciente, que sofre de algo que não conhece e expressa o desejo de ser curado. O ponto central da Medicina é esta relação que se estabelece entre o médico e o paciente, passível de todas as complexidades e ambigüidades presentes nas relações humanas. Há na literatura médica a percepção de que esta relação necessita ser aprimorada, já que teria reflexos diretos na evolução clínica de cada paciente. MAIMÔNIDES, apud Nahaissi (1990) médico e filósofo da antigüidade já orientava: “um médico deve fazer uma consulta de 1 hora; onde durante 10 minutos, deve auscultar os órgãos do paciente e durante os 50 minutos restantes, sondar-lhe a alma” Não se discutirão aqui, os méritos dos padrões morais do autor, justificados pelas culturas e valores da época, mas cabe destacar, apesar da rigidez, repressão e rigor, sua sensibilidade frente à importância dos cuidados a quem se trata.
Tem-se observado que, cada vez mais, os tratamentos propostos na pós-modernidade, se apresentam hiperespecializados, impessoais e até mesmo mercantilistas, levando o médico a ver o paciente como um objeto de estudo e não como propõe a Psicologia, como um Sujeito. Essa, apesar de ser um ciência relativamente nova , oferece subsídios para estudar e harmonizar áreas da medicina extremamente complexas, árduas e desafiadoras como a psicologia do estudante, da relação médico-paciente, da família entre estes, do contexto institucional, enfim de tudo o que permeia esse universo de relações e afetos.
Já preconizava PERESTRELLO(1996) que "o ensino só pode produzir um resultado satisfatório se puder ser incorporado no ser (“self”) do sujeito, trazendo-lhe um saber que vai ampliar os limites de sua identidade". Nasce-se com capacidades imanentes e tem-se a possibilidade de transcender à medida que se empenha para que isso ocorra investindo-se no desenvolvimento intelecto-espiritual. Assim sendo, como diz ALLONSO FERNANDES (apud MELLO FILHO, 1992.) " um curso de medicina que não provoca mudanças substanciais na personalidade do aluno, precisa ser reavaliado, pois não está cumprindo seus objetivos".
Durante a formação acadêmica, o aluno irá deparar-se com a doença, com o doente, com o seu ser médico, com a morte, com sua própria história e com outras inúmeras situações geradoras de ansiedade como a própria visita médica que contribui sobremaneira para ampliar seus conhecimentos clínicos e didáticos, mas que tem como prioridade, a assistência do paciente. BLAYA (1972), afirma que:
a escolha da medicina como profissão, envolve além da vocação e do desejo de curar, questões internas relacionadas com o desejo de saber mais e cuidar melhor daquilo que sentimos como doente em nós mesmos
TURREL(1992) enfatiza a existência de outras motivações inconscientes como: uma identificação maior ou menor com os pais, que o leva a preservar e continuar seus valores; desejo de eliminar impulsos agressivos e de sublimá-los através da reconstrução e da reabilitação o que vai permitindo uma elaboração da agressividade de desejos infantis inconscientes e finalmente , o desejo onipotente de curar vai reforçando a negação da morte e a idéia de que ela poderia ser detida.

Aquilo que o professor for para o aluno, será um modelo que este, se identificando, guardará dentro de si. MELLO FILHO(1992) destaca: docente bom será o que, além da postura, da correção, da elegância no falar, do conteúdo das aulas, favorecer o contato com os alunos, com a motivação humana da profissão, o encarar prático da realidade social responsável tantas vezes pela doença ali exposta..." "docente mau" é o que não se dá emocionalmente ao enfermo e ao grupo de estudantes, procurando manter-se dominador sobre a equipe de saúde, defendendo-se com onisciência que pretende ter.

Se o professor se apresentar como um semideus, perfeito, porém incapaz de se relacionar com o aluno, de escutá-lo, de inspirar-lhe confiança, respeito, segurança e despertar temor e insegurança, não reconhecendo suas próprias falhas, limites e dificuldades, certamente será este o modelo aprendido e apreendido. No futuro, salvo raras exceções, haverá a mesma modalidade de transmissão de "saber" para os alunos que virão, o que também refletirá diretamente, na forma como estes futuros médicos tratarão seus pacientes; aqueles que não sabem, que precisam de ajuda, que precisam ser cuidados e ensinados.O poeta WILLIAM BLAKE (1757-1993) diz : “ somos levados a crer na mentira quando vemos com e não através dos olhos”; esta citação aplica-se também à visita médica, a qual exige que o médico transcenda o "ver com os olhos", que significa ver um corpo, um organismo já estudado e desvendado porém em desequilíbrio, a ser tratado; mas ver "através dos olhos", que significa avaliar além daquele organismo já conhecido em sua fisiologia, funcionamento e anatomia, ver um sujeito, um ser único que ali está com seus afetos sua história de vida, suas experiências, suas dores, sua dinâmica psíquica, seu Universo próprio.entos que incomodam.
A psicanálise, com seus mais variados autores e das mais variadas maneiras, fala da estruturação do Ser a partir da linguagem; humanos são seres falantes e é a partir da fala que seus inconscientes são constituídos. Quando se depararam com eles próprios, já tinham um nome, muitas vezes realizador de homenagens a seres que nem conheceram, mas que constituem as suas raízes e influenciam suas diretrizes psíquicas, a partir do que lhes foi contado sobre eles. Tem-se uma língua paterna e outra materna, fica-se inserido no buraco que se funda entre as duas; tem-se uma escala de valores transmitida através daqueles que desempenharam os papéis parentais, um recorte cultural, um corpo psíquico e um corpo físico carregados de genes geniais e outros lamentáveis. O grande problema é tentar reprimir e negar esse lado mais empobrecido e menos desenvolvido de todos, utilizando-se mecanismos de negação ou onipotência, numa tentativa infantil de driblar aquilo que está explicitado na lacuna da relação estabelecida entre este que sabe algumas coisas e o outro que precisa não só desse saber, mas e principalmente da forma como ele é administrado e vem buscar auxílio e cuidados. Vale lembrar, como aponta PERESTRELLO, (1996) que, ao tentar censurar os sentimentos, muitas vezes por preconceito, rigidez ou desconhecimento, estes voltam como se fossem fantasmas circundando as mentes daqueles que optaram por curar. Estes, mesmo sentindo-se adoecidos, empobrecidos e relutantes ao contato de suas próprias dores e dificuldades, escondem-se atrás de anamneses rígidas e exames clínicos metódicos e estereotipados, geralmente muito mais assustados e inseguros que seus próprios pacientes.entos que incomodam.
A psicanálise, com seus mais variados autores e das mais variadas maneiras, fala da estruturação do Ser a partir da linguagem; humanos são seres falantes e é a partir da fala que seus inconscientes são constituídos. Quando se depararam com eles próprios, já tinham um nome, muitas vezes realizador de homenagens a seres que nem conheceram, mas que constituem as suas raízes e influenciam suas diretrizes psíquicas, a partir do que lhes foi contado sobre eles. Tem-se uma língua paterna e outra materna, fica-se inserido no buraco que se funda entre as duas; tem-se uma escala de valores transmitida através daqueles que desempenharam os papéis parentais, um recorte cultural, um corpo psíquico e um corpo físico carregados de genes geniais e outros lamentáveis. O grande problema é tentar reprimir e negar esse lado mais empobrecido e menos desenvolvido de todos, utilizando-se mecanismos de negação ou onipotência, numa tentativa infantil de driblar aquilo que está explicitado na lacuna da relação estabelecida entre este que sabe algumas coisas e o outro que precisa não só desse saber, mas e principalmente da forma como ele é administrado e vem buscar auxílio e cuidados. Vale lembrar, como aponta PERESTRELLO, (1996) que, ao tentar censurar os sentimentos, muitas vezes por preconceito, rigidez ou desconhecimento, estes voltam como se fossem fantasmas circundando as mentes daqueles que optaram por curar. Estes, mesmo sentindo-se adoecidos, empobrecidos e relutantes ao contato de suas próprias dores e dificuldades, escondem-se atrás de anamneses rígidas e exames clínicos metódicos e estereotipados, geralmente muito mais assustados e inseguros que seus próprios pacientes.
Dra.Ana Rosa Sancovski

 
         
 

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